São Félix do Xingu (PA) — A Terra Indígena Apyterewa, território do povo Parakanã no sudeste do Pará, acumulou 671 focos de calor em sete dias, entre 26 de agosto e 1º de setembro de 2026, segundo o histórico do PrevFogo, plataforma de monitoramento de queimadas mantida pelo Instituto Nós do Brejo a partir dos satélites da NASA. Na varredura mais recente, de 3 e 4 de setembro, os sensores registraram outros 150 focos ativos dentro dos limites da terra indígena — todos no município de São Félix do Xingu.
O número coloca Apyterewa como a segunda terra indígena mais atingida por queimadas em toda a Amazônia Legal na leitura mais recente, atrás apenas do Parque do Araguaia (451 focos), entre as 109 terras indígenas com fogo detectado no período.
O que os satélites registraram
Dos 150 focos ativos identificados na última varredura, o próprio sistema de classificação da plataforma aponta:
- 6 focos de risco crítico — os de maior potência radiativa, indicativos de fogo intenso, com queima de biomassa densa;
- 31 focos de risco alto;
- 113 focos de risco médio.
O foco mais intenso alcançou 131,09 MW de potência radiativa (FRP), quase nove vezes a média das detecções no território (14,6 MW), na altura das coordenadas 5°51'S, 52°00'O. Os seis focos críticos estão concentrados num raio de poucos quilômetros, na porção centro-sul da terra indígena — um padrão que, no monitoramento por satélite, costuma indicar fogo posto e não ignição natural.
As detecções vieram de cinco satélites diferentes, o que reduz a chance de alarme falso: VIIRS Suomi-NPP (59), VIIRS NOAA-21 (37), VIIRS NOAA-20 (36), Aqua (15) e Terra (3).
Sete dias de fogo contínuo
A série diária do PrevFogo mostra que o fogo em Apyterewa não é um evento isolado, mas uma sequência que se intensificou ao longo da última semana de agosto:
- 26 de agosto — 46 focos
- 27 de agosto — 93 focos
- 28 de agosto — 67 focos
- 29 de agosto — 94 focos
- 30 de agosto — 137 focos
- 31 de agosto — 117 focos
- 1º de setembro — 117 focos
São 671 detecções em sete dias — uma média de 96 focos por dia dentro de um território protegido por lei, em pleno auge da estação seca amazônica.
Um território devolvido ao povo Parakanã há pouco mais de dois anos
Com 773.470 hectares e homologada em 2007, Apyterewa é reconhecida como posse tradicional do povo Parakanã desde 1992. Antes da desintrusão determinada pelo Supremo Tribunal Federal e executada entre outubro de 2023 e março de 2024, viviam ali cerca de 3 mil não indígenas ocupando a terra ilegalmente, contra aproximadamente 1,4 mil indígenas. O território chegou a figurar entre os mais desmatados do país, com cerca de 100 mil hectares de floresta derrubados.
Depois da retirada dos invasores, a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) registrou queda de 97% no desmatamento no primeiro semestre de 2024 em relação ao mesmo período do ano anterior. É justamente esse ganho recente que a pressão do fogo agora ameaça: área desmatada e abandonada, tomada por vegetação seca e pasto, queima com muito mais facilidade — e o fogo que entra pela borda avança sobre floresta em pé.
Apyterewa fica em São Félix do Xingu, município que reúne o maior rebanho bovino do Brasil e um dos maiores desmatamentos anuais da Amazônia. O contexto ajuda a explicar por que o entorno da terra indígena concentra, ano após ano, focos de calor associados à limpeza de pasto e à abertura de novas áreas.
Por que o Instituto Nós do Brejo monitora
O PrevFogo (prevfogo.nosdobrejo.org) é uma plataforma pública e gratuita desenvolvida pelo Instituto Nós do Brejo que cruza, a cada 30 minutos, os focos de calor detectados pelos satélites do sistema FIRMS (NASA) com os limites oficiais de terras indígenas, territórios quilombolas, assentamentos e unidades de conservação da Amazônia Legal. A mesma base de satélites alimenta o BDQueimadas, do INPE.
A proposta é simples: transformar um dado que já existe, mas que fica disperso em planilhas técnicas, em informação que comunidades, lideranças, brigadistas, órgãos de fiscalização e imprensa consigam usar no mesmo dia. Quem identifica queimada ilegal também pode registrar denúncia anônima diretamente pela plataforma.
Nota metodológica: foco de calor não é sinônimo de incêndio nem de área queimada. Cada foco corresponde a uma detecção de anomalia térmica por satélite, num pixel que pode variar de 375 m a 1 km de lado — um mesmo incêndio pode gerar vários focos, e nem toda detecção corresponde a fogo criminoso. Os números aqui apresentados são de detecções registradas, e a confirmação em campo cabe aos órgãos de fiscalização. Dados coletados em 4 de setembro de 2026.
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