Instituto Nós do Brejo
Nota técnica · Observatório do Desenvolvimento, Cedeplar-UFMG Junho de 2026

Complexidade econômica e transição ecológica

O Brasil já emprega 17,7 milhões de pessoas em atividades sustentáveis — só que nem sempre onde mais precisa

Uma nota técnica do Observatório do Desenvolvimento (Cedeplar-UFMG) cruza a nova Taxonomia Sustentável Brasileira com dados de complexidade econômica — e revela um paradoxo: Norte e Nordeste, as regiões que mais demandam a transição ecológica, são justamente as que têm menos capacidade produtiva para absorvê-la.

Em 2025, o Brasil lançou sua própria Taxonomia Sustentável (TSB): um sistema oficial que classifica quais atividades econômicas contribuem de fato para objetivos ambientais, climáticos e sociais — servindo de bússola para investidores e para o poder público na hora de direcionar recursos à transição ecológica. Mas ter uma lista de setores "verdes" não basta: é preciso saber se o país tem, de fato, a capacidade produtiva para fazer esses setores crescerem — e onde essa capacidade está, ou não está, concentrada.

É essa a pergunta que orienta a nota técnica assinada por Vitor da Silva Marinho (professor da Unifesspa), João Romero e Gustavo Britto (professores do Cedeplar-UFMG), publicada pelo Observatório do Desenvolvimento. Usando dados de emprego formal e o conceito de complexidade econômica — quanto conhecimento técnico, infraestrutura e cadeias produtivas uma economia precisa para produzir algo —, os autores mapeiam onde a transição sustentável brasileira já está andando sozinha, e onde ela vai precisar de empurrão.

01O que é a Taxonomia Sustentável Brasileira

Instituída pelo Ministério da Fazenda, a TSB organiza 11 objetivos em dois eixos: um ambiental e climático (mitigação e adaptação às mudanças climáticas, biodiversidade, uso sustentável do solo e da água, economia circular, controle da poluição) e outro econômico-social (geração de trabalho decente, redução de desigualdades socioeconômicas, regionais e territoriais, e promoção da qualidade de vida). Para ser considerada elegível, uma atividade precisa contribuir substancialmente para pelo menos um desses objetivos sem prejudicar significativamente os demais — o mesmo princípio adotado por taxonomias sustentáveis já existentes na União Europeia, Colômbia e México.

Ficha do estudo

O que mede
Emprego formal e complexidade econômica das atividades elegíveis pela Taxonomia Sustentável Brasileira (TSB)
Fonte dos dados
Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), 2010–2023, e Índice de Complexidade Econômica Regional (ICE-R)
Abrangência
8 macrosetores, 300 atividades, 231 códigos CNAE, nas 558 microrregiões brasileiras
Instituição
Observatório do Desenvolvimento (ObD), Cedeplar-UFMG
Publicação
Nota Técnica 02-2026, junho de 2026

A TSB inclui, de forma pioneira em relação a outras taxonomias internacionais, setores como a agropecuária — responsável por 29% das emissões de gases de efeito estufa do Brasil em 2024 — e a mineração de minerais críticos, essenciais à transição energética global (como nióbio, lítio, cobre e terras raras, nos quais o país detém reservas estratégicas). Ao todo, a taxonomia se divide em oito setores, resumidos na tabela abaixo.

Divisão setorial da Taxonomia Sustentável Brasileira

SetorDescriçãoAtividadesCódigos CNAE
AAgropecuária, Florestas, Pesca e Aquicultura810
BIndústrias Extrativas1012
CIndústrias de Transformação2753
DEletricidade e Gás4925
EÁgua, Esgoto e Gestão de Resíduos3320
FConstrução1726
HTransporte, Armazenagem e Correio7439
SSServiços Sociais e Outros8285
Total: 300 atividades, 231 códigos CNAE. Fonte: Elaboração própria dos autores, com base em Brasil/MF (2025).

0217,7 milhões de empregos — e uma trajetória de altos e baixos

Em 2023, as atividades elegíveis pela TSB respondiam por 17,7 milhões de vínculos formais no Brasil — 21,7% de todo o emprego formal do país. Esse número já foi maior (16,8 milhões em 2014, 22% do total) e já foi bem menor: a crise econômica de meados da década derrubou o estoque para 12,5 milhões em 2017. De lá para cá, a recuperação foi gradual, até a taxonomia bater um novo recorde em 2023, 25,4% acima do vale de 2017.

Um único setor explica boa parte dessa montanha-russa: a Construção Civil, que concentra sozinha entre 40% e 50% de todos os vínculos da TSB ao longo do período — hoje, 2 em cada 5 empregos da taxonomia. Formalmente estável (sua participação recuou de 50,3% em 2010 para 39,8% em 2023, mas seu volume absoluto de vínculos mal se mexeu), o setor contrasta com Serviços Sociais, que ganhou 2,4 milhões de vínculos no período, e Transporte e Armazenagem, que ganhou 0,79 milhão — os dois motores reais do crescimento líquido do emprego sustentável no Brasil.

Um detalhe chama atenção nesse retrato: as Atividades de Serviços de Tecnologia triplicaram sua participação no emprego da TSB entre 2010 e 2023 (de 0,6% para 1,8%) — um sinal, segundo os autores, da crescente digitalização das atividades elegíveis pela taxonomia.

03Atividades sustentáveis são, em média, mais sofisticadas

A segunda pergunta da nota é sobre qualidade, não só quantidade: as atividades da TSB exigem mais conhecimento técnico, infraestrutura e cadeias produtivas densas do que a média da economia formal brasileira? Para responder, os autores usam o Índice de Complexidade Econômica (ICE), que mede o quanto uma atividade demanda capacidades produtivas raras e específicas.

A resposta é sim — mas com uma ressalva importante. Comparadas ao restante da economia formal, as atividades da TSB apresentam complexidade média acima da mediana nacional (0,24 contra -0,11), com distribuição mais deslocada para valores positivos e um "platô" que se estende para níveis de sofisticação bem mais altos. Ainda assim, a distribuição das duas se sobrepõe parcialmente: atividades como recuperação de pastagens degradadas, reciclagem mecânica de resíduos e transporte coletivo urbano — todas elegíveis pela TSB — têm baixa complexidade, mas cumprem objetivos climáticos e sociais relevantes. Ou seja, a transição sustentável não é um fenômeno exclusivo de alta sofisticação: há espaço nela tanto para atividades de ponta quanto para atividades mais simples, ampliando o leque de regiões e agentes econômicos que podem participar do processo.

04Onde essa sofisticação está concentrada

Ao cruzar o volume de emprego nos setores da TSB com o Índice de Complexidade Econômica Regional (ICE-R) das 558 microrregiões brasileiras, os autores encontram uma correlação positiva nítida: microrregiões que já são economicamente mais complexas concentram, ao mesmo tempo, o maior volume de empregos sustentáveis. É o caso das regiões metropolitanas do Centro-Sul — São Paulo, Porto Alegre, Osasco — que aparecem no topo dos dois indicadores simultaneamente.

No polo oposto, microrregiões de baixa complexidade — concentradas no Norte e no Nordeste — combinam estruturas produtivas pouco sofisticadas com baixa densidade de empregos nos setores da taxonomia. Entre 2010 e 2023, houve uma expansão relativa dos vínculos da TSB em direção a regiões antes menos dinâmicas, incluindo partes do Nordeste e da Amazônia Legal — mas essa difusão ainda ocorre em faixas intermediárias de intensidade, sem alterar a hierarquia geral: os maiores contingentes de emprego sustentável continuam nas regiões Sul e Sudeste.

As regiões que mais demandam a agenda da transição sustentável — por serem mais vulneráveis às mudanças climáticas e mais dependentes de atividades primárias de baixa sofisticação — possuem, ao mesmo tempo, menor estoque de capacidades produtivas para absorver os investimentos que a taxonomia busca mobilizar. Esse é o paradoxo central da transição sustentável no Brasil.

05Uma bússola para investir: a fronteira de diversificação verde

A principal contribuição da nota é metodológica: uma forma de identificar, para cada atividade da TSB ainda ausente em uma microrregião, se ela está próxima o suficiente das capacidades já instaladas para ser absorvida sem grandes rupturas. Cruzando a complexidade de cada atividade (ICA-R) com sua facilidade de entrada regional — a proporção de microrregiões que já têm o "ecossistema produtivo" necessário —, os autores organizam as 300 atividades da TSB em quatro quadrantes estratégicos.

Prioridade

Alta complexidade e alta facilidade de entrada — candidatas naturais a instrumentos de indução direta, pois não exigem construir ecossistemas produtivos do zero. Exemplos: Petroquímicos e Elastômeros (ICA-R = 1,79), Química Orgânica (1,68), Monitoramento Hídrico (1,47) e Biogás e Biometano (1,24), presentes em mais de 250 microrregiões.

Longo prazo

Alta complexidade, mas cobertura regional ainda restrita — demandam investimentos coordenados em qualificação técnica e adensamento de cadeias produtivas antes de se difundirem. Exemplos: Papel e Celulose (ICA-R = 1,32), Equipamentos para Eficiência Energética em Edificações (1,20) e Equipamentos para Energia Elétrica (1,15).

Entrada fácil

Menor complexidade, mas já presentes em mais de 60% das microrregiões brasileiras — funcionam como porta de entrada para regiões com menor estoque de capacidades. Exemplos: Produtos Químicos Inorgânicos (ICA-R = 0,22), Produção de Papel e Celulose (0,20), Pesca com Práticas Sustentáveis (-1,03) e Cacau com Práticas Sustentáveis (-2,05).

Baixa prioridade

Baixa complexidade e baixo percentual de regiões com entrada fácil — indicam trajetórias menos promissoras no contexto da diversificação orientada à transição ecológica. Exemplos: Extração e Beneficiamento de Minérios (ICA-R = -1,75), Extração de Minério de Nióbio (-1,88) e Extração de Minério de Níquel (-1,90).

Na outra ponta da análise, os autores mapeiam a adequação das capacidades produtivas regionais: nas microrregiões do quintil superior, entre 48% e 84% das atividades da TSB já têm facilidade de entrada — concentradas no Centro-Sul industrializado, no interior de São Paulo, na região Sul, em Minas Gerais e em polos agroindustriais do Centro-Oeste. Já no Norte e no Nordeste, extensas áreas da Amazônia, do Acre, do oeste do Pará e do semiárido nordestino reúnem microrregiões onde menos de 8,8% das atividades da TSB têm capacidade produtiva adequada para entrada — a marca mais visível do paradoxo regional que estrutura toda a nota.

06A taxonomia informa onde investir — não substitui a política

Os autores são diretos quanto aos limites do próprio instrumento: a TSB estabelece uma arquitetura classificatória sem a qual nenhuma política de promoção e financiamento de atividades sustentáveis pode ser construída com rigor — mas ela não decide, sozinha, quanto, como e em quais territórios os recursos devem ser aportados. Uma política de financiamento climático orientada exclusivamente pela facilidade de entrada nas atividades da TSB, alertam, correria o risco de reproduzir as assimetrias regionais já existentes, concentrando capital na metade sul do país.

Por isso, defendem instrumentos diferenciados: subsídios à formação de ecossistemas produtivos, políticas de atração de âncoras industriais e programas de capacitação técnica voltados a ampliar progressivamente a base produtiva do Norte e do Nordeste — condição, segundo a nota, para que a taxonomia cumpra também seu objetivo de redução das desigualdades regionais, e não apenas o climático.

Por que isso importa para o Brejo

O Pará e o Tocantins, território onde atua o Instituto Nós do Brejo, estão na região que a própria nota identifica como o centro do paradoxo: parte do Norte do país, mais exposta aos riscos climáticos e mais dependente de atividades primárias — e, ao mesmo tempo, com menos capacidades produtivas instaladas para captar os investimentos que a transição sustentável promete mobilizar. É um lembrete de que a agenda verde, sem investimento direto em capacitação técnica e cadeias produtivas locais, corre o risco de avançar em todo lugar, menos aqui.