Instituto Nós do Brejo
Pesquisa · Diocese de Marabá / PA 1980 – 1985

Memória, fé e resistência

A Igreja que não se calou na Ditadura

Entre 1980 e 1985, enquanto o regime militar vigiava padres e freiras como suspeitos, as Comunidades Eclesiais de Base da Diocese de Marabá se tornaram espaço de alfabetização, organização sindical e luta pela terra no Sul e Sudeste do Pará. Um TCC reconstitui essa história a partir de relatórios do SNI, do jornal O Grito da PA-150 e da memória de quem viveu esse tempo.

No sudeste do Pará dos anos 1980, ser padre, freira ou leigo engajado numa comunidade cristã podia significar constar num relatório do Serviço Nacional de Informações. A Diocese de Marabá — território de conflitos agrários, migração e violência contra posseiros — foi, ao mesmo tempo, alvo da vigilância militar e um dos poucos espaços onde a população rural pôde se organizar, se alfabetizar e formar lideranças durante os anos finais da Ditadura Civil-Militar.

É essa história que o Trabalho de Conclusão de Curso "Memória, Fé e Resistência: as Comunidades Eclesiais de Base no Sul e Sudeste do Pará nos anos finais da Ditadura Militar (1980-1985)", de Yana Brito Vieira — hoje professora do Instituto Nós do Brejo —, reconstitui a partir de três tipos de fonte: os relatórios de vigilância do SNI sobre o clero da região, as edições do jornal O Grito da PA-150, produzido pela própria Diocese com apoio da Comissão Pastoral da Terra, e entrevistas com agentes de pastoral que atuaram nas comunidades à época.

01Uma Igreja que escolheu os pobres

A partir da década de 1960, parte da Igreja Católica na América Latina passou por uma transformação profunda na forma de se relacionar com a pobreza e a desigualdade. Segundo os teólogos Clodovis e Leonardo Boff — referência central da pesquisa —, os governos populistas das décadas anteriores haviam produzido um desenvolvimento econômico dependente do capital estrangeiro, que aprofundou a marginalização das classes populares e gerou fortes reivindicações sociais em quase todo o continente.

"O fenômeno que constatamos fortemente a partir dos anos 60 em quase todos os países latino-americanos é este: os pobres, em sua grande parte cristãos, irrompem; animados pela fé, esclarecida nos círculos bíblicos e vivida em comunidades eclesiais de base ou em pequenos grupos de reflexão e ação, se organizam [...]" Clodovis Boff & Leonardo Boff, citados na TCC de Yana Brito Vieira

Foi nesse contexto que a Teologia da Libertação se consolidou como um novo jeito de ser Igreja no continente — e as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) se tornaram seu núcleo de convivência mais concreto: pequenos grupos onde fé cristã, leitura da Bíblia e organização popular caminhavam juntas. O "povo" a que essas comunidades se referiam era, em sua maioria, formado por leigos pobres, em condição de marginalização social; e "libertação" era compreendida não apenas como um processo espiritual, mas como o enfrentamento prático da fome, da violência e da negação de direitos básicos.

02Sob vigilância: a Diocese no radar dos militares

Antes mesmo da criação do SNI, bispos como Dom Hélder Câmara (Recife), Dom Fernando Gomes dos Santos (Goiânia) e Dom Antônio Batista Fragoso (Crateús) já eram alvo de atenção dos militares por seus posicionamentos. Na Amazônia, os bispos do Regional Norte II — liderados por Dom Estevão Cardoso de Avelar, bispo de Marabá — começaram a emitir críticas mais agressivas à política de desenvolvimento do governo para a região ainda em 1970, chegando a pregar "uma autêntica reforma das estruturas e da política agrária".

Nos arquivos do SNI, hoje disponíveis no site do Arquivo Nacional, é possível observar uma vigilância constante do clero da Diocese de Marabá: relatórios acompanhavam as atividades de bispos, padres e religiosas, com informações que iam da origem e do endereço de cada um até a descrição de suas relações pessoais. Os religiosos investigados quase sempre vinham classificados como "progressistas" ou "subversivos".

A Diocese sob a lupa do SNI

Bispo (1980)
Dom Alano Maria Pena — enquadrado pelos militares como padre "progressista"
Relatório-chave
"Atualização de dados referentes ao movimento religioso" — Agência Belém do SNI, 09/06/1982
Estrutura vigiada
"Estrutura da Diocese de Marabá – 4.6.2" — Agência Central do SNI, 24/11/1983
Elevação a Diocese
1979, sob Dom Alano — antes, Prelazia de Marabá (desde 1969)

Um desses relatórios registra a preocupação militar com o discurso de Dom Alano contra os grileiros que agiam impunes contra os posseiros da região:

"Os grileiros sentem-se cada vez mais fortes, podem tratar de igual para igual com as autoridades, com os soldados etc., o que lhes dá margem para todo tipo de desmandos, de abusos, de barbaridades, que evidentemente jamais reconhecerão terem praticado. Os posseiros vivem sempre sob a mira dos fatores da lei, sempre ameaçados, porque não tem como falar com qualquer autoridade, e, lá no fundo da mata, estão expostos a todo tipo de crueldade, vendo a morte de alguns companheiros permanecer impune." Dom Alano Maria Pena, citado no jornal da Diocese de Marabá

Já em 1982, ano de eleições, um relatório do SNI mostra como os militares interpretavam a proximidade entre a Igreja e a política de oposição:

"Nos dias que antecederam as eleições de NOV 82, a campanha desferida pelo clero, contra o Partido Democrático Social (PDS) e seus candidatos, foi quase ostensiva, posto que, na maioria das paróquias, por ocasião das celebrações religiosas, bem como nos encontros de pastoral ou ainda nas comunidades de base, os presentes eram induzidos a votar 'contra o partido do Governo'." Relatório da Agência Belém do SNI, 1983

03Como as comunidades se organizavam

A Diocese de Marabá não estava dividida em paróquias tradicionais, mas em cinco "centros de evangelização", cada um cobrindo um território amplo do sudeste paraense — de Marabá à Rodovia Transamazônica, da PA-70 até a PA-150, que ligava Marabá a Goianésia do Pará. Era nesses centros, e nas comunidades espalhadas ao longo deles, que as CEBs se organizavam com o apoio de padres, religiosas e, principalmente, de leigos.

Os cinco centros de evangelização da Diocese (1983)

1
Marabá — cidade e arredores
2
Itupiranga — região ao norte da Rodovia Transamazônica
3
São Domingos — entre São Domingos e Palestina, ao sul da Transamazônica
4
PA-70 (BR-222) — São João do Araguaia, Bom Jesus e Abel Figueiredo até o Km 98
5
PA-150 — Rodovia Marabá-Belém até Goianésia do Pará

A Igreja não dispunha de padres suficientes para estar presente em todas as comunidades — e foi justamente essa ausência que tornou as CEBs tão populares no sudeste do Pará: eram os próprios leigos, sobretudo as rezadeiras, quem conduzia orações, festejos e a vida comunitária, com padres e religiosas acompanhando na medida do possível.

"Eh, inclusive por isso que funcionou, como assim não tem padre, nem freira, né? O povo se vira. Eles expressam a fé deles através da reza, tem a rezadeira, tem a contadora, tem o nós. [...] Não é clerical, não tem clero. É de comunidade, é que faz a unificação." Emmanuel Wambergue, "Mano" — agente de pastoral na Diocese de Marabá

A leitura da Bíblia era um dos principais eixos de mobilização das comunidades. Boa parte dos trabalhadores rurais era analfabeta, e foi por meio do trabalho do Movimento de Educação de Base (MEB) que muitos aprenderam a ler — muitas vezes tendo a própria Bíblia como primeiro livro. Essa leitura não era apenas devocional: conduzia os agricultores marginalizados a uma reflexão crítica sobre sua própria realidade, inclusive lendo suas trajetórias de migração para o Pará à luz da história bíblica de busca por uma terra prometida.

Além das comunidades, dois espaços organizavam a vida coletiva da Diocese: as Miniassembleias, realizadas em cada centro de evangelização, e a Assembleia Geral do Povo de Deus, que reunia representantes de toda a Diocese. Foi numa dessas assembleias, entre 17 e 19 de outubro de 1980, que as comunidades escolheram coletivamente suas prioridades pastorais — da alfabetização à organização de caixas comunitárias para a comercialização da produção agrícola.

04Duas trajetórias: Mano e Oneide

Entre os agentes de pastoral que sustentaram esse trabalho, a pesquisa de Yana Brito Vieira destaca duas trajetórias como exemplos vivos da formação das CEBs — e de uma história de resistência na luta pela posse da terra.

Quem eram

Maria Oneide Costa Lima
Agente de pastoral da Diocese de Conceição do Araguaia, em São Geraldo do Araguaia. Viúva de Raimundo Ferreira Lima, o "Gringo", agente de pastoral assassinado por pistoleiros em 1980 por causa da luta pela terra.
Emmanuel Wambergue, "Mano"
Imigrante francês, chegou a Marabá em 1975. Agente de pastoral em Palestina até 1981; depois, um dos fundadores e coordenador da Comissão Pastoral da Terra (CPT) em Marabá e na Regional de Belém.

Oneide assumiu o trabalho pastoral do marido após sua morte, criando seis filhos e atuando ao lado dos padres franceses Aristides Camio e Chico Gouriou. Viveu anos de ameaças constantes de pistoleiros, chegou a ser detida em prisão domiciliar quando padres da região foram presos, e relembra uma dessas noites de tensão:

"Uma vez nós saímos da Paraúna correndo, o Ricardo da CPT mandou pedir um relatório de lá, aí nós fomos. [...] Aí chega uma mulher, me chamou: 'tá vendo aquele homem acolá? Ali é um pistoleiro'. [...] E o povo começou a falar e nós escrevendo e pegando relatório. E quando demos fé todo mundo saindo de fininho, e a mulher veio: 'Dona Oneide, vai embora, vai embora'. Aí nós saímos [...] Quando nós passamos numa ponte, a ponte quebrada, e os homens atrás. Aí o Joãozito: 'Meu Deus, o homem puxou o revólver!'" Maria Oneide Costa Lima, relembrando o trabalho como agente de pastoral

Diante da intensificação das ameaças contra sua família, Oneide deixou o trabalho pastoral e se dedicou à educação, formando-se professora — sua experiência no MEB lhe deu base para isso — e lecionou por muitos anos numa escola de São Geraldo do Araguaia batizada com o nome do marido.

Mano, por sua vez, chegou à região ainda jovem e logo se envolveu com as CEBs. Sua trajetória ficou marcada pela atuação junto aos conflitos agrários e por ter sido um dos responsáveis pela fundação da CPT em Marabá:

"Quando eu cheguei aqui em 75 a grande palavra que se tinha realmente era CEBs, as comunidades eclesiais de base [...] a primeira coisa que eu fiquei muito impressionado é aonde tu andavas, tu pisava, em qualquer lugar, qualquer casa, qualquer aglomeração de pessoas, qualquer lugar cheio de gente eu não sei o que sempre que tinha alguma coisa começava com uma reza um Pai-nosso." Emmanuel Wambergue, "Mano" — sobre sua chegada a Marabá em 1975

Como observa a pesquisa, o resgate dessas duas trajetórias por meio da história oral contribui para compreender como as CEBs no sudeste do Pará de fato viviam e trabalhavam — algo que dificilmente estaria registrado se a única fonte disponível fossem os documentos oficiais.

05O legado: da fé à formação política

A conclusão da pesquisa de Yana Brito Vieira é direta: por meio de suas práticas horizontais e democráticas, as CEBs da Diocese de Marabá contribuíram para a formação de lideranças sociais, políticas e religiosas que estiveram à frente de movimentos populares democráticos. A relação entre a Igreja, as comunidades e movimentos como o MEB, a CPT e os sindicatos rurais mostra como a formação religiosa se converteu, também, em formação política — a alfabetização dos membros das comunidades, os debates sobre questões agrárias e a vivência das assembleias estão entre as práticas que a pesquisa destaca como formativas.

Ao cruzar os relatórios do SNI, as edições d'O Grito da PA-150 e os relatos de Mano e Oneide, o trabalho evidencia três perspectivas de um mesmo período: a de um governo que via a Igreja Católica no sudeste do Pará como ameaça e a classificava como "progressista"; a de uma Diocese que usava seu próprio jornal para denunciar violências e manter as comunidades conectadas entre si; e a de agentes de pastoral que viveram, no corpo, os riscos dessa resistência.

Uma pesquisa que também é história do Instituto

Yana Brito Vieira, autora deste TCC, é hoje professora do Instituto Nós do Brejo. Sua pesquisa segue um fio que atravessa também outros trabalhos publicados aqui — a memória da Ditadura no Sul e Sudeste do Pará como um dever ético de quem se formou numa universidade pública.