Quando o assunto é "economia verde", a primeira pergunta é sempre a mesma: verde segundo quem? Organizações como a APEC, o FMI, a OCDE e a OMC criaram, cada uma, sua própria lista de produtos ambientalmente estratégicos — e essas listas divergem bastante entre si, ora priorizando tecnologias de baixo carbono, ora bens de uso mais amplo. Uma nota técnica do Observatório do Desenvolvimento decidiu não escolher uma única lista: comparou as quatro ao mesmo tempo, para entender o que elas têm em comum e o que revelam, juntas, sobre o desempenho exportador brasileiro entre 2016 e 2024.
Assinada por Vitor Marinho, João Prates Romero, Elton Freitas, Gabriela Balduino e Gustavo Britto, a nota chega a um resultado que se repete nas quatro classificações analisadas: os produtos verdes são, em média, estruturalmente mais complexos — exigem mais conhecimento técnico, infraestrutura e cadeias produtivas — do que o restante do comércio internacional. O problema é que essa sofisticação ainda não se traduz em competitividade brasileira: o país exporta, cada vez mais, os produtos verdes mais simples, e segue de fora dos mais avançados.
01O que conta como "produto verde"?
Não existe uma definição única de produto verde no comércio internacional. A OCDE adota a abordagem mais abrangente (247 produtos), cobrindo gestão da poluição, tecnologias limpas e gestão de recursos. A OMC, buscando um consenso multilateral mais amplo, chega a 395 produtos. Já o FMI foca especificamente em tecnologias de baixo carbono — as chamadas Low Carbon Technologies (LCT), como turbinas eólicas e painéis solares —, com 124 produtos. A APEC adota a lista mais restrita, com apenas 54 bens, resultado de negociações tarifárias entre os países do bloco.
Ficha do estudo
- O que mede
- Evolução das exportações brasileiras de produtos verdes, segundo quatro classificações internacionais (APEC, FMI, OCDE, OMC)
- Período
- 2016 a 2024, valores deflacionados pelo Consumer Price Index (CPI) dos EUA, base 2024
- Classificação de produtos
- Sistema Harmonizado (SH), padronizado em 6 dígitos (6.620 categorias) para comparabilidade entre as quatro listas
- Instituição
- Observatório do Desenvolvimento (ObD), Cedeplar-UFMG
- Publicação
- Nota Técnica 03-2025, setembro de 2025
As quatro classificações internacionais de produtos verdes
| Instituição | Nº de produtos | Foco metodológico |
|---|---|---|
| APEC | 54 | Negociação política entre países; energia renovável, eficiência, água, resíduos e poluição |
| FMI | 124 | Tecnologias de baixo carbono (turbinas eólicas, painéis solares, veículos elétricos) |
| OCDE | 247 | Abordagem abrangente: gestão da poluição, tecnologias limpas e gestão de recursos |
| OMC | 395 | Lista ampliada para negociação multilateral, incorporando as propostas da OCDE e da APEC |
| Fonte: Elaboração própria dos autores. | ||
02Um núcleo comum de 50 produtos — e o domínio das máquinas
Apesar das diferenças de escopo, as quatro classificações convergem em um núcleo comum de 50 produtos reconhecidos simultaneamente por todas elas — a base de um consenso internacional mínimo sobre o que é, afinal, um bem ambiental. A convergência mais forte acontece entre OCDE e OMC, que compartilham 90 produtos, refletindo o fato de a OMC ter incorporado boa parte da classificação da OCDE em suas próprias negociações.
Nas quatro listas, um único macrossetor domina: máquinas e equipamentos — turbinas, compressores, sistemas de gestão energética — responde por entre 42,5% (OCDE) e 63% (APEC) de todos os produtos verdes classificados. É um sinal, segundo os autores, de que existe um núcleo tecnológico consensual centrado em equipamentos de geração e eficiência energética, independentemente da abordagem institucional adotada.
03Um pico em 2017, um vale na pandemia, uma estabilização em patamar mais baixo
As exportações brasileiras de produtos verdes atingiram seu pico histórico em 2017, com US$ 31,5 bilhões — para em seguida entrar em uma trajetória de contração acentuada, que culminou no piso de US$ 16,2 bilhões em 2020, ano marcado pela ruptura das cadeias produtivas globais causada pela pandemia de Covid-19. A recuperação, a partir de 2021, foi só parcial: as exportações se estabilizaram em torno de US$ 21-22 bilhões anuais entre 2021 e 2024 — cerca de 70% do valor observado no pico de 2017.
Mais revelador que o valor absoluto é o comportamento relativo: a participação dos produtos verdes no total exportado pelo Brasil caiu de 10,5% em 2016 para 9,3% em 2024. Ou seja, mesmo com a recuperação em dólares, o resto da economia exportadora brasileira cresceu mais rápido do que os produtos verdes — um sinal de que a diversificação em direção a segmentos ambientalmente estratégicos ainda não se consolidou como prioridade da pauta exportadora nacional.
Participação dos produtos verdes nas exportações totais brasileiras (%)
| Ano | APEC | FMI | OCDE | OMC | Total |
|---|---|---|---|---|---|
| 2016 | 1,2% | 2,4% | 5,3% | 8,8% | 10,5% |
| 2017 | 1,2% | 2,5% | 5,4% | 8,5% | 10,4% |
| 2018 | 1,2% | 2,4% | 5,1% | 8,2% | 10,0% |
| 2019 | 1,1% | 2,4% | 5,1% | 8,1% | 9,9% |
| 2020 | 1,1% | 2,5% | 5,0% | 8,2% | 9,9% |
| 2021 | 1,1% | 2,5% | 5,0% | 8,1% | 9,9% |
| 2022 | 1,0% | 2,2% | 4,6% | 7,6% | 9,3% |
| 2023 | 1,0% | 2,2% | 4,6% | 7,6% | 9,3% |
| 2024 | 1,0% | 2,2% | 4,7% | 7,7% | 9,3% |
| Valores deflacionados pelo CPI dos EUA (BLS), base 2024. Fonte: Elaboração própria dos autores. | |||||
04O que o Brasil mais exporta de "verde"
Em 2024, Máquinas e equipamentos (38,0%), Transporte (32,7%) e Químicos (18,1%) respondem, juntos, por quase 90% de tudo o que o Brasil exporta classificado como produto verde. É uma composição pouco sofisticada na prática: o produto individual mais exportado é o óxido de alumínio (categoria 281820), commodity mineral que sozinha soma 1% de toda a pauta verde — seguido por diferentes categorias de automóveis de passageiros e veículos de transporte.
Essa predominância de commodities minerais e produtos automotivos sugere que a dinâmica das exportações verdes brasileiras permanece vinculada a ciclos de demanda e preços internacionais desses segmentos específicos — o que explica tanto a volatilidade observada entre 2017 e 2020 quanto a posterior estabilização. Em contraste, produtos de maior complexidade econômica, como equipamentos especializados de geração renovável, aparecem na pauta com participação máxima de apenas 0,32%.
05Os produtos verdes em ascensão
Apesar do peso ainda pequeno na pauta total, alguns produtos verdes específicos registraram crescimento explosivo entre 2016 e 2024 — sinal, segundo os autores, de nichos emergentes de maior sofisticação tecnológica que ainda não se converteram em volume relevante de exportação.
Produtos verdes com maior crescimento (2016→2024)
- Acumuladores elétricos de níquel-hidreto metálico
- +2.062,9% — alinhado ao avanço da eletromobilidade e do armazenamento energético
- Instrumentos e aparelhos de medição
- +1.649,0% — insumos para monitoramento ambiental e eficiência industrial
- Grupos eletrogêneos de motor a pistão
- +1.536,4%
- Painéis, chapas e ladrilhos especializados
- +1.529,8%
- Vagões ferroviários abertos
- +1.328,8%
- Transformadores elétricos
- +1.320,5%
Pela classificação mais ampla da OMC — que inclui produtos de uso dual, como combustíveis — aparecem também crescimentos extraordinários em propano liquefeito (+84.536%) e butanos liquefeitos (+76.688%), refletindo uma configuração concentrada em combustíveis fósseis e infraestrutura de transporte energético, distinta do perfil tecnológico observado nas listas da OCDE e do FMI.
06O paradoxo central: o Brasil é competitivo no verde errado
É na complexidade econômica que a nota chega ao seu achado mais importante. Em todas as quatro classificações, sem exceção, os produtos verdes apresentam Índice de Complexidade do Produto (ICP) médio muito superior ao dos produtos não verdes — 0,910 contra -0,011 na APEC; 0,631 contra -0,025 no FMI; 0,611 contra -0,050 na OCDE; 0,668 contra -0,060 na OMC. Consolidando as quatro listas, o ICP médio dos produtos verdes chega a 0,595, ante -0,076 dos não verdes.
Mas o Brasil não é competitivo na maior parte desses produtos. De um total de 152 produtos verdes identificados (combinando as quatro classificações), o país apresentava Vantagem Comparativa Revelada (VCR ≥ 1) em apenas 43 deles em 2016 — número que subiu para 48 em 2024, após um pico de 139 em 2023.
O ICP médio dos produtos verdes nos quais o Brasil é competitivo (0,537) é inferior ao ICP médio dos produtos verdes nos quais o país ainda não é competitivo (0,622). Ou seja: a competitividade brasileira está consolidada nos produtos verdes de menor sofisticação relativa, enquanto os mais complexos permanecem em segmentos nos quais o país não tem vantagem comparativa.
Entre os novos produtos que passaram a ter vantagem comparativa entre 2016 e 2024 estão justamente os acumuladores elétricos de níquel-hidreto, instrumentos de medição e transformadores de alta potência — sinal de que existem, sim, núcleos emergentes de especialização em segmentos mais sofisticados. Mas eles ainda são marginais: sem a presença dos produtos verdes, o índice geral de complexidade das exportações brasileiras (0,008) seria ainda mais próximo da periferia do que já é — mascarando o papel que a dimensão ambiental hoje cumpre para sustentar a complexidade relativa do país.
07O que fazer com esse diagnóstico
Os autores recomendam dois instrumentos de política já existentes e testados. Primeiro, reorientar parte dos instrumentos de financiamento industrial — em especial os do BNDES — para os produtos verdes, aproveitando a participação já relevante de máquinas e equipamentos nas listas internacionais. Segundo, direcionar apoio específico às exportações dos produtos verdes mais complexos, hoje ainda marginais na pauta, como forma de fomentar o desenvolvimento produtivo sustentável de fato — não apenas a exportação de commodities rotuladas como verdes.
Para os autores, o aproveitamento das oportunidades abertas pela transição energética global exige articulação coordenada entre instrumentos industriais, comerciais e de inovação — um espaço de convergência entre a Nova Indústria Brasil (NIB), o Plano de Ação Climática (PAC) e o Plano de Transformação Ecológica (PTE), hoje tratados como agendas paralelas.
Por que isso importa para o Brejo
O padrão que a nota descreve para o Brasil como um todo — competitividade concentrada em commodities de baixa complexidade, com produtos verdes mais sofisticados ainda fora do alcance — é também o retrato do próprio território onde atua o Instituto Nós do Brejo, historicamente inserido nas cadeias de exportação de commodities agropecuárias e minerais. Sem investimento em capacitação técnica e diversificação produtiva local, o "verde" que a região mais provavelmente vai exportar é o de menor valor agregado — repetindo, em escala regional, o mesmo paradoxo que a nota identifica em escala nacional.
MARINHO, V.; ROMERO, J. P.; FREITAS, E.; BALDUINO, G.; BRITTO, G. Observatório do Desenvolvimento, Cedeplar-UFMG, Nota Técnica 03-2025.