O lítio já é chamado de "ouro branco": mineral estratégico para baterias de veículos elétricos, essencial à transição energética global e alvo de uma corrida internacional por reservas. Em Minas Gerais, o governo estadual lançou em 2019 o projeto "Vale do Lítio", reunindo 14 municípios do Vale do Jequitinhonha com potencial confirmado para a exploração do mineral. Um estudo publicado na revista DRd – Desenvolvimento Regional em debate reconstitui o retrato socioeconômico dessa região às vésperas da mineração em larga escala — e a imagem que aparece é de contrastes profundos.
Assinado por Caio César Soares Gonçalves, Vítor da Silva Marinho e Helena Teixeira Magalhães Soares, o artigo parte de uma pergunta que já era feita há quase duas décadas por Enríquez (2008) sobre a mineração em geral: ela vai representar, para o Vale do Jequitinhonha, uma "dádiva" ou uma "maldição"? A resposta, segundo os autores, ainda não está escrita — mas os dados disponíveis hoje mostram exatamente os pontos em que a região é vulnerável, e que precisam de atenção antes que a exploração avance.
01Os 14 municípios do "Vale do Lítio"
O projeto "Vale do Lítio" é uma iniciativa do governo de Minas Gerais, liderada pela Invest Minas, para fomentar a cadeia produtiva do lítio na região Nordeste do estado. A seleção dos municípios seguiu o mapeamento de reservas confirmadas feito pela Codemig e pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM): Teófilo Otoni, Salinas, Capelinha, Araçuaí, Pedra Azul, Minas Novas, Medina, Turmalina, Itaobim, Malacacheta, Itinga, Virgem da Lapa, Coronel Murta e Rubelita.
Ficha do estudo
- Município-polo
- Teófilo Otoni (maior PIB e população da região)
- Municípios mais vulneráveis
- Rubelita e Itinga — maiores índices de vulnerabilidade social e envelhecimento populacional
- Fontes de dados
- Censo Demográfico 2022 (IBGE), Índice Mineiro de Responsabilidade Social (Fundação João Pinheiro), Cadastro Único, Comex Stat
- Referência internacional
- "Triângulo do lítio" — Argentina, Chile e Bolívia — e experiências da Europa (Portugal, Espanha, Alemanha)
- Publicação
- DRd – Desenvolvimento Regional em debate, v. 15, p. 820-845, 25 jul. 2025 · doi.org/10.24302/drd.v15.5829
Para organizar a análise, os municípios foram divididos em quatro grupos conforme o porte populacional: Grupo 1 (Teófilo Otoni, sozinho, como maior polo), Grupo 2 (Salinas, Capelinha e Araçuaí), Grupo 3 (Pedra Azul, Minas Novas, Medina, Turmalina, Itaobim e Malacacheta) e Grupo 4 (Itinga, Virgem da Lapa, Coronel Murta e Rubelita) — os municípios menores e, como mostram os dados, os mais vulneráveis.
02Uma economia que ainda não sentiu o lítio — mas já dá sinais
Hoje, a economia da região ainda é sustentada majoritariamente por serviços públicos e pelo comércio, com baixa diversificação produtiva. Teófilo Otoni é o principal polo, com PIB de R$ 2,95 bilhões em 2021 — mas apenas 0,05% dos seus empregos formais estão ligados à mineração. É nos municípios menores que a atividade extrativa já pesa mais: em Itinga, 22,84% dos empregos formais estão concentrados nesse setor.
O sinal mais claro de que algo está mudando aparece nos dados de exportação. Araçuaí e Itinga se tornaram protagonistas na venda de "matérias minerais não especificadas" — categoria que inclui o espodumênio, mineral do qual se extrai o lítio —, alcançando recordes em 2023: US$ 236 milhões e US$ 69 milhões, respectivamente. O crescimento começou em 2019 e reflete diretamente o interesse global pelo mineral.
Valor das exportações — municípios selecionados (2018–2023, em US$)
| Município | 2018 | 2019 | 2020 | 2021 | 2022 | 2023 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Grupo 1 | ||||||
| Teófilo Otoni | 17.485.724 | 33.106.156 | 11.663.942 | 12.332.265 | 21.818.571 | 37.417.242 |
| Grupo 2 | ||||||
| Araçuaí | 341.260 | 323.337 | 168.164 | 3.805.234 | 56.276.729 | 237.105.118 |
| Salinas | 261.491 | 456.419 | 483.491 | 453.106 | 2.166.566 | 1.449.468 |
| Grupo 4 | ||||||
| Itinga | 1.771.054 | 1.161.498 | 1.398.663 | 1.097.459 | 694.645 | 70.476.040 |
| Fonte: Comex Stat. Valor FOB (US$). Tabela reduzida — o artigo original traz os 14 municípios completos. | ||||||
Apesar do crescimento, a participação dos municípios do "Vale do Lítio" nas exportações estaduais ainda é modesta — 0,99% em 2023. O artigo aponta um risco concreto nesse cenário: a experiência internacional mostra que a exploração de lítio pode gerar "enclaves econômicos" com pouca integração à economia local, se não vier acompanhada de políticas de agregação de valor, capacitação da mão de obra e diversificação produtiva.
03Uma região que envelhece e perde gente
O retrato demográfico revela um desafio estrutural: a maioria dos municípios menores do "Vale do Lítio" tem crescimento populacional negativo, refletindo êxodo rural e baixa atratividade econômica. Apenas Turmalina, Pedra Azul e Capelinha registraram crescimento populacional significativo entre 2010 e 2022.
O envelhecimento é particularmente agudo em Rubelita, onde o índice de envelhecimento chegou a 101,9 em 2022 — ou seja, já há mais idosos do que crianças. Isso tem implicações diretas para a oferta de mão de obra local, justamente o tipo de atividade intensiva em trabalho que a mineração costuma demandar.
População residente e crescimento — municípios selecionados (2010 e 2022)
| Município | Pop. 2010 | Pop. 2022 | Cresc. 2010/2000 | Cresc. 2022/2010 |
|---|---|---|---|---|
| Teófilo Otoni | 134.745 | 137.418 | 0,40% | 0,16% |
| Capelinha | 34.803 | 39.626 | 1,09% | 1,09% |
| Turmalina | 18.055 | 20.000 | 1,44% | 0,86% |
| Itinga | 14.407 | 13.745 | 0,36% | −0,39% |
| Virgem da Lapa | 13.619 | 11.804 | −0,04% | −1,18% |
| Coronel Murta | 9.117 | 8.200 | −0,02% | −0,88% |
| Rubelita | 7.772 | 5.679 | −2,68% | −2,58% |
| Fonte: IBGE, Censos Demográficos 2000-2010-2022. Tabela reduzida — o artigo original traz os 14 municípios completos. | ||||
Os dados do Índice Mineiro de Responsabilidade Social (IMRS), da Fundação João Pinheiro, aprofundam esse quadro: nenhum dos municípios do "Vale do Lítio" figura entre os 100 melhores colocados do estado, enquanto Medina e Itinga estão entre os 100 municípios mais carentes de Minas Gerais. Itinga apresenta indicadores críticos em praticamente todas as dimensões avaliadas — educação (698º lugar entre 853 municípios), saúde (660º), segurança (785º), vulnerabilidade (680º) e saneamento (625º).
Em municípios como Coronel Murta, Virgem da Lapa e Rubelita, mais de 75% da população em idade ativa está inscrita em programas sociais — um retrato direto da fragilidade das condições econômicas locais.
04O que o "triângulo do lítio" ensina
Para entender o que pode acontecer no Vale do Jequitinhonha, os autores analisam experiências internacionais — sobretudo o chamado "triângulo do lítio" (Argentina, Chile e Bolívia), responsável por boa parte das reservas globais de salmoura, além de casos na Europa.
Extração dominada por empresas estrangeiras (Orocobre, Minera Exar). O modelo prioriza acordos entre províncias e empresas transnacionais, com participação limitada das comunidades locais nos lucros e nas decisões — uma "integração subalterna" das populações.
— Martin et al. (2017); Iribarnegaray et al. (2022)
Um dos maiores produtores mundiais, concentrado no Salar de Atacama sob monopólio de poucas empresas (SQM, Albemarle). Conflitos pelo uso da água com comunidades locais têm pressionado reformas — como a obrigatoriedade de venda de parte do lítio no mercado interno.
— Obaya; Pascuini (2020); Eyzaguirre; Rojas; Lucero (2023)
Modelo de gestão estatal, com controle público sobre o lítio do Salar de Uyuni desde 2008 e esforço para agregar valor localmente (plantas de baterias). Enfrenta, porém, falta de capital, infraestrutura e expertise técnica para escalar a produção.
— Iribarnegaray et al. (2022); Argento; Slipack (2021)
Portugal tem algumas das maiores reservas europeias, em depósitos pegmatíticos — o mesmo tipo de depósito do Vale do Jequitinhonha —, mas enfrenta resistência de comunidades locais por conta da degradação ambiental e da contaminação hídrica.
— Raichande (2023); Morgado et al. (2020)
"Extrativismo verde": a continuidade de práticas extrativistas convencionais sob o discurso da sustentabilidade — o lítio é promovido como "mineral verde", central para a transição energética, mas essa narrativa pode obscurecer os impactos socioambientais reais sobre as comunidades locais. Citado no artigo a partir de Dietz (2018) e Argento; Slipak; Puente (2022)
O denominador comum entre os três países sul-americanos, segundo o artigo, é que a corrida pelo lítio frequentemente exclui as comunidades locais dos benefícios econômicos gerados pela atividade extrativa — resultado de estruturas institucionais que favorecem a apropriação dos recursos por atores externos.
05Três eixos para transformar mineração em desenvolvimento
A partir desse diagnóstico, o artigo propõe diretrizes de políticas públicas estruturadas em três eixos complementares.
Desenvolvimento econômico integrado
Diversificação produtiva e agregação de valor local, para evitar a dependência excessiva da mineração. Entre as propostas: um Programa de Desenvolvimento de Fornecedores Locais, um Centro Regional de Pesquisa e Inovação em Tecnologias do Lítio, e Zonas Especiais de Processamento Mineral com incentivos fiscais condicionados à geração de empregos.
Desenvolvimento humano e social
Qualificação profissional voltada à cadeia do lítio, com foco prioritário em jovens e mulheres; fortalecimento da atenção primária à saúde nos municípios com piores indicadores; expansão da educação básica; e universalização do saneamento básico, sobretudo onde os déficits são mais críticos.
Gestão ambiental e territorial
Monitoramento contínuo da água nas bacias impactadas, um Mosaico de Unidades de Conservação, recuperação de áreas degradadas e um Zoneamento Ecológico-Econômico Participativo que oriente tanto o licenciamento ambiental quanto as políticas de desenvolvimento territorial.
Governança proposta
- Conselho Regional do Vale do Lítio
- representação paritária entre governos, empresas, sociedade civil e academia
- Fóruns Municipais de Acompanhamento
- monitoramento cidadão das atividades minerárias
- Protocolos de Consulta Prévia, Livre e Informada
- direito à autodeterminação das comunidades impactadas
- Observatório do Vale do Lítio
- composição independente, com participação acadêmica e social
- Revisão da CFEM
- aumento das alíquotas e destinação prioritária dos royalties a investimentos estruturantes
06Uma janela de oportunidade — e um alerta
Os autores são enfáticos ao afirmar que o sucesso da exploração do lítio como vetor de desenvolvimento regional depende de uma abordagem equilibrada, que concilie benefícios econômicos, sustentabilidade ambiental e inclusão social das comunidades locais. O estudo reconhece também os limites reais da implementação dessas propostas: mineradoras internacionais têm maior poder econômico diante de vozes críticas, num ambiente político estadual alinhado ao liberalismo econômico, que tende a priorizar a atração de investimentos em detrimento da regulação e da proteção social e ambiental.
Como conclui o artigo, os instrumentos propostos precisam ser não apenas tecnicamente robustos, mas também politicamente viáveis — capazes de enfrentar assimetrias de poder e garantir participação social efetiva na definição dos rumos do desenvolvimento regional. O Vale do Jequitinhonha atravessa, segundo os pesquisadores, "um momento decisivo de sua trajetória de desenvolvimento": o desafio é converter a conjuntura favorável em transformações estruturais, rompendo com os ciclos históricos de exploração predatória.
Por que isso importa para o Brejo
O caso do Vale do Jequitinhonha é um alerta e um roteiro para qualquer território brasileiro diante de um grande projeto de exploração mineral: os benefícios da mineração não chegam sozinhos às comunidades — dependem de governança participativa, transparência e políticas públicas desenhadas antes que a exploração comece.