A Amazônia Legal vive uma contradição de décadas: como conciliar a conservação da maior floresta tropical do planeta com o crescimento econômico de uma região historicamente dependente da expansão agropecuária? Um estudo publicado na revista Planejamento e Políticas Públicas simula os efeitos de combinar uma política de desmatamento zero à expansão da bioeconomia — e conclui que os dois objetivos podem, sim, caminhar juntos.
Assinado por Vitor da Silva Marinho, Aline Souza Magalhães e Edson Paulo Domingues, o artigo utiliza o modelo Regia — um modelo inter-regional de equilíbrio geral computável que representa toda a economia brasileira, região por região, incluindo um módulo próprio de uso da terra — para projetar cenários entre 2020 e 2040. O resultado central: bioeconomia e conservação ambiental, combinadas, podem gerar ganhos acumulados de PIB de até 4,7% no Pará, além de preservar cerca de 9,83 milhões de hectares de floresta que, de outra forma, seriam convertidos em pasto e lavoura.
01Uma região marcada por ciclos econômicos
Antes de simular o futuro, os autores revisitam o passado. Desde o período colonial, a Amazônia atravessou sucessivos ciclos econômicos, cada um baseado na exploração intensiva de um recurso natural — e seguido de esgotamento e declínio, sem deixar uma estrutura produtiva duradoura.
XVII–XIX
Ciclo das "drogas do sertão": extrativismo de produtos nativos — cacau, guaraná, ervas medicinais — para abastecer o mercado europeu. Sem estrutura produtiva sustentável, o impacto econômico de longo prazo foi limitado.
Ciclo da borracha: o boom da vulcanização modernizou Manaus e Belém, até a concorrência da borracha asiática levar o setor à estagnação a partir de 1912.
Ciclo da madeira e da mineração, intensificado pelas políticas de integração nacional da ditadura militar — abertura da Transamazônica e incentivos fiscais que aceleraram o desmatamento e a concentração de terras.
Ciclo da pecuária e da agricultura intensiva: o agronegócio — soja e carne bovina — se firma como o principal motor econômico da região, às custas de profundas transformações socioambientais.
Uma nova economia da Amazônia: a bioeconomia surge como alternativa que transcende os ciclos anteriores, agregando valor à biodiversidade em vez de exauri-la.
Embora a conversão de florestas para agropecuária cause grande impacto ambiental, sua contribuição para o PIB regional é mínima — apenas 0,142%. Atividades que degradam intensamente o meio ambiente geram, na prática, um retorno econômico irrisório, muitas vezes associado à especulação fundiária em vez de à produtividade real.
É esse paradoxo — desmatar rende pouco, mas continua acontecendo — que dá origem à pergunta central do artigo: existe um caminho de crescimento que não dependa dele?
02Como simular duas décadas de economia amazônica
Para responder a essa pergunta, os autores recorrem a um modelo de equilíbrio geral computável (EGC) — uma ferramenta que trata a economia como uma rede de mercados interconectados, na qual um choque em um setor ou região se propaga para todos os demais. O modelo Regia é regionalizado e dinâmico: incorpora um módulo próprio de uso da terra, que distribui o território de cada estado entre lavoura, pastagem e floresta (natural e plantada), ajustando essa alocação ano a ano conforme a rentabilidade relativa de cada uso.
Ficha do estudo
- Modelo
- Regia — modelo inter-regional de equilíbrio geral computável, com módulo dinâmico de uso da terra (lavoura, pastagem, floresta plantada e natural)
- Período simulado
- 2020 a 2040, calibrado com a matriz de insumo-produto do IBGE referente a 2015
- Cenários comparados
- Trajetória de referência (baseline, sem novas políticas) x cenário com desmatamento zero a partir de 2030 combinado a um choque de 100% na produção de setores da bioeconomia
- Setores de bioeconomia simulados
- Açaí-fruto, cacau-amêndoa, castanha-do-pará, açaí-palmito, cupuaçu, urucum, bacuri, mel e pupunha — cultivos permanentes e extrativismo vegetal
- Publicação
- Planejamento e Políticas Públicas (ppp), n. 71, set.-dez. 2024 [2025], Ipea · dx.doi.org/10.38116/ppp71art2
O cenário de referência assume a continuidade das tendências atuais: crescimento do PIB nacional de 2% ao ano, produtividade da terra crescendo 1% ao ano e produtividade do trabalho, 0,8% ao ano — parâmetros alinhados às projeções do Banco Central e a padrões históricos de crescimento no Brasil. Sobre essa base, o choque de bioeconomia simula uma duplicação da produção dos setores selecionados até 2040, permitindo avaliar de forma proporcional e escalável os impactos econômicos e ambientais dessa expansão.
03Onde a bioeconomia mais faz a economia crescer
Os resultados macroeconômicos revelam uma resposta bastante heterogênea entre os nove estados da Amazônia Legal. O Pará se destaca com o maior ganho — até 4,7% de crescimento acumulado do PIB —, impulsionado pela expansão de cadeias bioeconômicas já mais estruturadas, como açaí, cacau, cosméticos e biotecnologia florestal. Amapá (2,76%) e Amazonas (2,79%) também registram impactos expressivos — no Amazonas, puxados pela integração da bioeconomia à indústria local da Zona Franca de Manaus.
No outro extremo, Tocantins (0,14%), Maranhão (-0,01%) e Mato Grosso (-0,17%) apresentam os menores impactos — resultado, segundo os autores, de estruturas produtivas ainda muito dependentes de soja e pecuária extensiva, com pouca aderência aos produtos da bioeconomia e cadeias de exportação com dificuldades de integração ao mercado regional.
Impacto sobre indicadores macroeconômicos — acumulado em relação ao cenário base (2025–2040, em %)
| UF | Consumo das famílias | Investimento | Consumo do governo | Emprego |
|---|---|---|---|---|
| Acre | 0,91 | 1,65 | 0,91 | 0,84 |
| Amazonas | 1,60 | 4,31 | 1,60 | 1,53 |
| Amapá | 2,11 | 3,25 | 2,11 | 2,04 |
| Maranhão | 0,19 | −0,47 | 0,19 | 0,12 |
| Mato Grosso | 0,07 | 0,14 | 0,07 | 0,00 |
| Pará | 2,90 | 4,69 | 2,90 | 2,83 |
| Rondônia | 0,48 | 0,80 | 0,48 | 0,41 |
| Roraima | 1,29 | 2,80 | 1,29 | 1,22 |
| Tocantins | 0,35 | −0,18 | 0,35 | 0,28 |
| Fonte: Souza, Magalhães e Domingues (2022); modelo Regia. Elaboração dos autores. | ||||
No mercado de trabalho, os ganhos se traduzem em postos de trabalho concretos: no Amazonas, o modelo projeta a criação de aproximadamente 213.858 novos postos ao longo do período, elevando o total de 654.000 (2021) para cerca de 867.858 em 2040. No Amapá, o crescimento do emprego é estimado em 61.740 postos, passando de 126.000 (2020) para aproximadamente 187.740 em 2040.
Já a balança comercial conta uma história mais cautelosa: a maioria dos estados projeta desempenho negativo nesse indicador, já que grande parte da produção da bioeconomia é absorvida pelo consumo doméstico, não pela exportação. O Amapá é a exceção, com um aumento projetado de 0,25% nas exportações até 2040 — sinal de que a inserção internacional dos produtos da bioeconomia amazônica ainda depende de investimentos em certificação, logística e canais de comercialização.
04Setores que ainda pesam pouco — mas já mudam a paisagem
A estrutura produtiva da Amazônia Legal continua dominada por serviços e comércio — no Pará, o setor de serviços responde por mais de 51% da economia estadual; no Amapá, chega a 71%. O Amazonas se diferencia pela concentração industrial (34% do PIB estadual), puxada pela Zona Franca de Manaus. Diante desse pano de fundo, os setores da bioeconomia ainda ocupam uma fatia pequena — mas já em expansão visível sob o cenário simulado.
Onde a bioeconomia mais avança
- Extrativismo vegetal no PIB estadual (2040, sob o choque simulado)
- Pará 1,40% · Amapá 1,40% · Roraima 0,70% — as participações mais elevadas entre os nove estados
- Crescimento da participação de "outras lavouras permanentes" (2020→2040)
- Pará +1,60 ponto percentual · Amazonas +1,00 ponto percentual — o avanço mais expressivo do grupo
- Setores com participação marginal
- Acre, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso — estrutura produtiva ainda concentrada em soja e pecuária extensiva
Essa concentração de ganhos no Pará e no Amazonas confirma um padrão já apontado por outros estudos: o fortalecimento da bioeconomia depende da infraestrutura produtiva e institucional preexistente em cada estado. Onde já existem cadeias de valor organizadas, universidades e centros de pesquisa, a bioeconomia encontra terreno fértil para crescer; onde a economia segue presa a modelos extensivos de uso da terra, o avanço é limitado — reforçando que não deve existir uma política única de bioeconomia para toda a Amazônia, mas estratégias territorialmente diferenciadas.
05Menos desmatamento, mais floresta em pé
É no uso da terra que a combinação de políticas mostra seu efeito mais concreto. Sem nenhuma política de controle, o modelo projeta um desmatamento acumulado de 12,2 milhões de hectares entre 2025 e 2040 — uma média anual de 0,82 milhão de hectares, compatível com os dados históricos do INPE. Com a política de desmatamento zero a partir de 2030 combinada à expansão da bioeconomia, esse número cai para apenas 2,37 milhões de hectares acumulados — uma média de 0,16 milhão de hectares por ano.
Mudança no uso do solo na Amazônia Legal — acumulado até 2040 (em milhões de ha)
| Categoria | Sem política | Com desmatamento zero + bioeconomia |
|---|---|---|
| Cultivo | 5,83 | 2,87 |
| Pastagem | 6,86 | 1,17 |
| Floresta natural | 1,91 | 0,45 |
| Fonte: modelo Regia. Elaboração dos autores. | ||
A comparação entre os cenários indica que a adoção de políticas de controle do desmatamento, aliada ao incentivo à bioeconomia, pode resultar na preservação de aproximadamente 9,83 milhões de hectares de floresta na Amazônia Legal até 2040 — uma área equivalente ao território de Santa Catarina.
A redução recai sobretudo sobre as áreas de pastagem, cuja rentabilidade relativa cai diante da política ambiental: elas passam de 6,86 milhões de hectares convertidos no cenário sem políticas para apenas 1,17 milhão de hectares no cenário com incentivo à bioeconomia. Os autores fazem, porém, uma ressalva importante: os benefícios ambientais reais dependem do modelo produtivo adotado. Sistemas agroflorestais e policultivos baseados na sociobiodiversidade tendem a conservar muito mais os serviços ecossistêmicos do que monoculturas intensivas — que, mesmo sob o rótulo de bioeconomia, podem reproduzir padrões de degradação típicos da agricultura convencional.
06Uma estratégia possível — com limites reais
Os autores concluem que a bioeconomia tem potencial real para conciliar crescimento econômico e conservação ambiental na Amazônia — mas alertam que ela não deve ser tratada como solução única ou uniforme para toda a região. A capacidade de cada estado de absorver essa expansão depende da estrutura produtiva local, da fundiária e das dinâmicas de mercado já existentes, o que exige planejamento diferenciado território por território.
O estudo também reconhece suas próprias limitações: o número de produtos da bioeconomia analisados ainda é reduzido, não há um módulo específico para estimar emissões de gases de efeito estufa, e o modelo de equilíbrio geral, apesar de robusto para simular cenários, não captura plenamente a complexidade dos sistemas socioecológicos — como assimetrias de poder entre grandes empresas e comunidades locais. Os autores recomendam que pesquisas futuras combinem essa abordagem com metodologias complementares, incluindo modelos baseados em agentes e mecanismos de precificação de carbono.
Por que isso importa para o Brejo
O Tocantins, território onde atua o Instituto Nós do Brejo, aparece no estudo entre os estados com menor resposta projetada à bioeconomia — reflexo de uma estrutura produtiva ainda pouco diversificada. É um lembrete direto: defender a floresta em pé não basta se não vier acompanhado de investimento real em cadeias produtivas locais, capacitação técnica e acesso a mercado — para que a conservação ambiental também se traduza em renda e oportunidade para quem vive no território.
MARINHO, V. da S.; MAGALHÃES, A. S.; DOMINGUES, E. P. Planejamento e Políticas Públicas, n. 71, 2024/2025 · Ipea